Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007
Novamente da Caparica para o Gerês
Caro Henrique e demais AMBIOnautas,
O autor dos "baixos" do EXPRESSO vem perfeitamente identificado no jornal.
Eu não fui, de certeza. Mas não me importava nada de ter feito esse belíssimo "flash", como é notório. Sem pretender que o Ministro do Ambiente se transforme num feiticeiro que "prenda o mar", como "outros prendem a chuva"... Talvez reminiscências das minhas memórias de África!
Trata-se de João Garcia, jornalista que assina a coluna do "Altos ... e baixos" (jgarcia@expresso.pt). Tudo às claras. Pelos vistos, também há "altos", embora, na semana passada, só tenha aparecido um.
Quanto à plantação de árvores no Gerês, que tanto parece incomodar o Henrique (pessoa que eu muito prezo, embora nos tenhamos cruzado pessoalmente, talvez, apenas uma vez, e cujas opiniões, aqui, na AMBIO, nunca me levantaram qualquer objecção), não fui eu que andei a prometê-la.
Basta lembrarmo-nos da comunicação social das épocas dos incêndios para (re)ver o rodopio de quanto é Ministro, de quanto é Governo, de quanto é Autarca, de quanto é funcionário, do Ministério do Ambiente incluído, a prometer mais inquéritos, mais prevenção, mais mundos e fundos para a
reflorestação. É tudo um "é já a seguir"... E, depois, quando, como aqui já alguém disse, "os incêndios dormem" as promessas também adormecem.
Inclusive as promessas de reflorestação feitas pelo Ministério do Ambiente e/ou da Agricultura.
Mas vamos ao que mais (me) interessa e que me toca directamente.
Diz o Henrique:
"Caro
Manuel Antunes, devo ter sido o primeiro técnico (juntamente com outros, se bem me lembro) a dar parecer sobre o projecto de florestação que é referido no comunicado, lá pelos idos de 1989 e se tenho consciência de ter feito muitas asneiras pela vida fora seguramente que o parecer negativo
que dei não foi uma delas. Se a encosta de Vilarinho é hoje uma das áreas com melhor recuperação do Parque Nacional é exactamente pela diminuição da pressão humana que se seguiu à construção da barragem (diga-se de passagem que provavelmente eu teria sido contra a construção dessa barragem, mas não é isso que discuto). E com o projecto de apropriação disfarçado de projecto de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que temos hoje, do ponto de vista da conservação".
Primeiro, fico satisfeito por saber que alguém do ICN leu o comunicado
d'AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf).
Pelo menos, o ICN já tinha acusado a sua recepção automática, mais rapidamente do que o gabinete do Ministro do Ambiente. Mas ainda não teve tempo para responder, o que a gente de Vilarinho da Furna até desculpa, porque já está habituada a isso: desde que não nos respondam mal, já ficamos satisfeitos. Apesar do pessoal do ICN e de muitos outros organismos públicos passarem a vida a justificar o seu "ganha pão" à custa de pareceres negativos para as Áreas Protegidas, Parque Nacional do Peneda-Gerês incluído. Pois essas Áreas Protegidas só existem porque as populações daí
naturais e/ou residentes criaram e mantêm as condições para que elas existam. "Não havia necessidade", pois, de os técnicos do ICN (e não só), como diz o nosso povo, "cuspir na mão de quem lhes dá o pão".
Depois, porque, por mais satisfeito que se sinta o Henrique Pereira dos Santos, com o seu "mais que iluminado parecer negativo" sobre o projecto d'AFURNA, felizmente que, como dizia o humilde moleiro prussiano, para o seu
todo poderoso  e prepotente Imperador, "ainda há tribunais em Berlim para julgar as arbitrariedades dos poderosos".
Neste caso, houve tribunal em Braga. E, para que conste, no Tribunal de Círculo de Braga, na Acção Ordinária n.º 89/94, 1.º Juízo, em 13 de Outubro de 1995, ficou deiberado: "O Parque Nacional da Peneda-Gerês elaborará, até Outubro de 1995 e por forma a que dê entrada no Instituto Florestal em tempo útil, o projecto, modelo P.D.F., relativo à florestação dos terrenos situados na encosta da margem direita da Albufeira de Vilarinho da Furna e na área do Parque, apoiando a sua aprovação através do respectivo parecer favorável, assim como acompanhará e fiscalizará a execução daquele mesmo projecto, aceitando como interlocutora a ré AFURNA". E, logo a seguir: "Para compensar a ré AFURNA dos trabalhos de corte e extracção das madeiras do Pinhal da Bouça da Mó, também discutido nesta acção, o Parque Nacional da Peneda-Gerês entregará a soma de seiscentos mil escudos, que o réu
Manuel Antunes na qualidade de presidente da Direcção da mesma Afurna vai receber".
Reconheça, lá, Henrique, que foi obra, esta de ter entrado no processo como réu e sair do Tribunal com a condenação do PNPG a ter que elaborar o projecto, mesmo contra o seu parecer, e a ter ainda direito a uma
indemnização pelos pinheiros que cortei, em representação d'AFURNA, na Bouça da Mó, na Mata da Albergaria!...
Depois de muitas vicissitudes por que passou, entretanto, o referido projecto de reflorestação, só parte dele foi ainda executado. O resto da história poderá ficar para um próximo "post".Mas confesso que não percebo essa do Henrique, quando diz que, "com o projecto de apropriação disfarçado de projecto
de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que temos hoje, do ponto de vista da conservação".
É que, fique muito claro, aqui não houve nem  há qualquer disfarce. E nunca seria pelo facto de os terrenos de Vilarinho serem florestados com apoio do Estado português e da UE (quando a nossa área de uns 2000 hectares até tem contribuído para trazer dinheiro de Bruxelas para Lisboa), que haveria qualquer apropriação. Essa apropriação, por parte da gente de Vilarinho, vem de tempos imemoriais e foi confirmada na "Guerra do Gerês" (talvez venha a  falar dela aqui), de 1890, e por várias sentenças de Tribunal, a última das quais a já referida sentença do Tribunal de Braga, de 1995. Se quiserem mais alguma sentença comprobatória, é só dizer, porque, por mim, podemos ir já hoje Tribunal, talvez a única instituição portuguesa com que me tenho dado muito bem, mesmo quando entro como réu. Graças, naturalmente, ao traquejo que me deu o facto de ter andado numa dezena de processos,
durante meia dúzia de anos, com um Director do PNPG, cujo nome me dispenso de referir, por já o ter "imortalizado", além do mais, num dos meus livros.
Aproveito a oportunidade para agradecer ao Henrique (como, então, membro da Direcção do ICN) por ter dado uma ajuda para o enviar para bem longe da nossa terra e do nosso Parque.
Como este "post" já vai longo, apenas gostava de convidar, por agora, os colegas da AMBIO para dar uma espreitadela "à encosta de Vilarinho (que) é hoje uma das áreas com melhor recuperação do Parque Nacional", no dizer do
Henrique Pereira dos Santos, vários dias após o incêndio do Verão passado, depois de lá terem andado 2 aviões, 2 helicópteros, o exército português e multidões de bombeiros.  Assim o exigia o espectáculo que, na minha ingenuidade, tive a desfaçatez de procurar evitar, ao requerer, sem qualquer resposta até hoje, à Direcção do PNPG  que fosse roçado o mato e feito fogo controlado, naquela zona, de cerca de 300 hectares, no inverno de 2006.
Reparem só, se não tiverem paciência para a leitura de todo o Comunicado, na página 4, na "beleza" do foto n.º 2, e na exuberância daquela área "com melhor recuperação do Parque Nacional".
Henrique "dixit".
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf).
Manuel Antunes

----- Original Message -----
From: "henrique pereira dos santos" <as1075017@sapo.pt>
To: "'
Manuel Antunes'" <mantunes@mail.telepac.pt>; "'AMBIO'"
<ambio@uevora.pt>
Cc: "'Ministro do Ambiente'" <gmaotdr@maotdr.gov.pt>
Sent: Monday, February 26, 2007 6:12 AM
Subject: RE: [ambio] Da Caparica para o Gerês

Não sei quem escreveu os baixos do expresso, mas num parágrafo tão pequeno é
obra conseguir meter tanta demagogia.
Vejamos:
"O Jornal EXPRESSO, na sua edição de 24/02/2007, coloca o Ministro do
Ambiente, Nunes Correia, entre os "baixos". Como aí se refere, "a provada
incapacidade em conter o mar na Costa de Caparica"
Será que um jornalista responsável acha normal falar em provada incapacidade
de um Ministro conter o mar? Em primeiro lugar o mar foi contido porque não
houve ruptura, em segundo lugar, como é evidente, não é ao ministro que se
podem pedir responsabilidades sobre os resultados de obras de emergência. Ao
ministro podem pedir-se responsabilidades sobre a política de gestão do
litoral e, neste caso, até acho que se lhe devem pedir responsabilidades
pelo facto de se estar enterrar dinheiro a defender parques de campismo que
de campismo não têm nada, e que há muito deveriam de lá ser tirados. Isto é,
o problema é a contenção a mais e não a menos.
"e a denúncia de que, volvidos seis meses sobre os incêndios no Gerês, ainda
não foi plantada qualquer árvore, não abonam a favor do Ministério do
Ambiente."
Felizmente que não foi plantada qualquer árvore, seria mais dinheiro deitado
à rua. O incêndio teve muito menos consequências do que para aí se diz
(provavelmente o jornalista nunca foi ao Ramiscal na vida) e a haver medidas
de recuperação elas devem ser no sentido do apoio à regeneração natural e
não a ir para lá estragar mais com as florestações que são muitas vezes mais
degradadoras que o próprio fogo.
"No Gerês, a culpa parece ser da falta de verbas do Parque Natural; na
Costa, diz-se que há muito dinheiro deitado ao mar. Sugere-se uma troca de
verbas"."
Agora fico baralhado. Então critica-se a incapacidade de conter o mar e a
solução é investir menos? É tão fácil arranjar uns trocadilhos a fazer pouco
dos outros quando não se tem qualquer responsabilidade de decidir o que quer
que seja.
"Agora compreende-se porque um Comunicado d' AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/INCENDIO_VILARINHO.pdf), sobre o último incêndio
no monte de Vilarinho, enviado por e-mail para o Gabinete do Ministro do
Ambiente, em 2/09/2006, só foi lido em 19/10/2007"
Caro
Manuel Antunes, devo ter sido o primeiro técnico (juntamente com
outros, se bem me lembro) a dar parecer sobre o projecto de florestação que
é referido no comunicado, lá pelos idos de 1989 e se tenho consciência de
ter feito muitas asneiras pela vida fora seguramente que o parecer negativo
que dei não foi uma delas. Se a encosta de Vilarinho é hoje uma das áreas
com melhor recuperação do Parque Nacional é exactamente pela diminuição da
pressão humana que se seguiu à construção da barragem (diga-se de passagem
que provavelmente eu teria sido contra a construção dessa barragem, mas não
é isso que discuto). E com o projecto de apropriação disfarçado de projecto
de florestação da AFURNA hoje teríamos uma situação muito pior que a que
temos hoje, do ponto de vista da conservação.
henrique pereira dos santos
 


publicado por MA às 18:04
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